Manifestações Linguísticas

A avaliação das habilidades linguísticas, permite a identificação das manifestações linguísticas, sendo estas encontradas em diferentes tipos de afasias. Diante do exposto torna-se essencial a avaliação criteriosa das habilidades e manifestações linguísticas, uma vez que é por meio destas que o diagnóstico das afasias é realizado.

O blog Afasia em Foco trouxe uma postagem sobre as manifestações linguísticas explicando e exemplificando cada uma delas. Tenha uma boa leitura!

Anomia: Este comportamento é caracterizado pela dificuldade em nomear o estímulo alvo. Pode estar relacionado à dificuldade de acesso fonológico, lexical ou semântico ou na passagem da informação entre alguns subsistemas. Pode aparecer na avaliação do discurso ou nas provas de nomeação específicas.

Comportamento observado em: Afasia anômica, afasia de broca ou transcortical motora e nas demências.

Exemplo: Terapeuta: O que é isto?

                  Paciente: Isso? É é isso…

                  (O paciente fica tentando dizer o nome e não consegue)

Agramatismo: É a desorganização da estrutura sintática. Pode ocorrer tanto na fala quanto na escrita, mas não necessariamente ocorre concomitantemente. Neste comportamento é observado redução drástica na formulação da expressão oral pela simplificação extrema da mensagem. O afásico omite elementos da frase, podendo variar quanto a gravidade, sendo mais comum a omissão de elementos de classe fechada, sem significado isoladamente, como artigos, preposições,conectivos… Estas palavras são eliminadas da fala levando ao interlocutor ouvir um discurso como se fosse telegráfico. Em casos mais graves os enunciados podem estar restritos a uma única palavra, podem ser encontradas formas simplificadas da estrutura frasal, como sujeito + verbo ou verbo + objeto.

Comportamento observado em: Encontrado em afasias motoras como por exemplo broca.

Exemplo: Terapeuta: O que você fez ontem?

                  Paciente: Eu cedo padaria café

Redução: Observa-se uma diminuição de enunciados em uma unidade de tempo. Pode ocorrer nas emissões orais e gráficas.

Comportamento observado em: Afasias motoras

Exemplo: Ao pedir para o paciente contar como foi o dia, o mesmo emite um discurso bastante reduzido, lentificado. Pode tornar a conversação sobre determinados temas impossíveis.

 

Paráfrase: Neste comportamento o afásico ao tentar dizer uma palavra a substitui por uma frase. O paciente tenta descrever a ação e dar significado da palavra que tenta emitir.

Comportamento observado em: Afasia Anômica

Exemplo: Aquilo que serve para escrever, ao invés de dizer o nome do objeto (lápis/caneta…)

Circunlóquio: Neste comportamento observa-se uma evidente dificuldade do afásico acessar o tema principal da enunciação. Durante a emissão o indivíduo desvia do tema, não consegue falar de forma específica sobre o tópico fundamental, evidenciando um discurso prolixo.

Comportamento observado em: Característicos da afasia anômica e de quadros demenciais.

Exemplo: Paciente: Este objeto aqui… Eu acho que é… Bom serve para escrever, quer dizer para… 

Jargão: É um comportamento com alteração em nível do discurso caracterizado pela fala sem alteração na articulação e prosódia. Observa-se ritmo acelerado, substituição de palavras, presença de palavras ininteligíveis que leva a um discurso com conteúdo sem significado para o interlocutor.

Comportamento observado em: Afasias sensoriais, nas demências e também em quadros psiquiátricos.

Exemplo: Paciente: Este é um garoto, estuda, direção vai para fora direção do parque para aquela forma de pagamento, na rua sem água para tomar banho.

Estereotipia: Este comportamento é um dos mais impressionantes e ainda existe pouca descrição na literatura. Trata-se da emissão de segmentos sonoros que são automaticamente repetidos de forma involuntária e perseverativa todas as vezes que o indivíduo expressa de forma oral ou escrita. São produzidas por um período de tempo indeterminado (pode persistir por semanas, meses ou anos), predominando como a expressão verbal ou sendo a única forma de expressão do afásico. O paciente comunica-se dizendo a mesma palavra ou frase sempre com entonação melódica como se tivesse conversando normalmente pelo código linguistico oral. O sujeito afásico não parece ter nunca dificuldade em emitir sua estereotipia, eles a produzem facilmente, suavemente e sem esforço aparente. Segundo Code, (1989), as estereotipias podem ser dividas em lexicais e não lexicais.

Estereotipias Lexicais: constituídas de palavras ou frases com significado.

Estereotipias Não Lexicais: constituídas de uma sequência de fonemas, palavras sem significado e emissões ininteligíveis.

Comportamento observado em: Afasia global ou afasias predominantemente motoras como Broca.

Exemplo:  Estereotipia com a palavra boca:

                 Terapeuta: Qual seu nome todo

                  Paciente: Boca boca boca

 Perseveração: É a manutenção da mesma palavra para diferentes estímulos. Neste comportamento o afásico tem consciência de que na verdade não quer dizer aquela sequência, fica “procurando” a palavra e retorna dizendo a palavra em que estava perseverando.

Comportamento observado em: Característico de afasias motoras.

Exemplo: Terapeuta: Qual o nome deste objeto?

                  Paciente: caneta

                  Terapeuta: E deste? (mostra um objeto diferente)

                  Paciente: caneta (continua perseverando na palavra caneta)

Ecolalia: Este comportamento verbal é caracterizado por uma repetição sistemática de palavras ditas pelo interlocutor e em casos muito graves há incapacidade de emissão espontânea. Está associado a uma significativa dificuldade de compreensão oral.

Comportamento observado em: Principalmente afasias sensoriais como wernicke e transcortical sensorial e nas diferentes síndromes demenciais.

Exemplo: Terapeuta: Quantos filhos o senhor tem?

                  Paciente: Quantos filhos o senhor tem?

Mutismo: Este comportamento é também bastante impressionante, é caracterizado pela ausência total de emissão oral. Tal alteração pode ser encontrada em casos de afasias muito graves. Em determinado tipo de afasia no qual a compreensão pode estar preservada, o paciente pode tentar de forma incessante emitir alguma palavra, em outros casos o paciente está com todas as habilidades gravemente comprometidas e portanto não há tentativa de qualquer expressão oral. Pode ocorrer também na emissão gráfica e pode ser chamado de supressão.

Comportamento observado em: Afasia global, afasia de broca.

Exemplo: Terapeuta: Bom dia!

                   Paciente: totalmente em silêncio sem produzir qualquer emissão oral.

Neologismo: Neste comportamento o afásico produz uma sequência fonêmica e/ou grafêmica que obedecem às regras da língua parecidas com palavras, mas que não existem na língua. Os interlocutores não compreendem e nem reconhecem a emissão como uma palavra com significado ou dicionarizada.

Comportamento observado em: Afasias sensoriais e pode ser observado em afasias motoras também na tentativa do afásico de emitir alguma palavra. Também observado em alguns quadros demenciais.

Exemplo: Paciente: Fui comprar um manteco.

Parafasias: Uso errôneo de palavra pertencente a um grupo linguístico no lugar de outra palavra que pertence a outro grupo de palavras. Quando aparecem na escrita são chamadas de paragrafias e na leitura de paralexias.

Comportamento observados em: Diversos tipos de afasias como afasia de broca, transcotical motora, de condução…

Podem ser classificadas em:

Parafasia Fonêmica: Inadequação na seleção dos fonemas ou na combinação destes na fala. Pode se manifestar por trocas, omissões, acréscimos de fonemas ou de sílabas.

Exemplo: Trocar caneta por caveta ou caleta.

Parafasia Fonética: Caracterizada por uma distorção na produção dos fonemas.

Exemplo: O paciente emite ca/S/elo na tentativa de dizer cabelo.

Parafasia Morfêmica: Acontece pela substituição dos morfemas gramaticais das palavras.

Exemplo: O paciente troca menino por menina ou cantamos por cantar.

Parafasia verbal: Ocorre quando o paciente realiza a substituição de uma palavra por outra existente na língua, mas não é possível identificar sua relação nem quanto a forma nem quanto ao conteúdo.

Exemplo: Se o paciente emite sofá no lugar de manga.

Parafasia Formal: Acontece quando a troca, substituição, omissão, ou acréscimo originam outra palavra da língua, com a forma parecida mas sem pertencer ao mesmo grupo semântico.

Exemplo: Ao tentar dizer cabelo diz camelo.

Parafasia Semântica: É a troca de uma palavra por outra de mesma categoria semântica.

 Exemplo: O paciente ao tentar dizer laranja diz goiaba.

 

Referências Bibliográficas

Ortiz KZ, Distúrbios Neurológicos Adquiridos Linguagem e Cognição, 2°ed, Barueri SP, 2010

Casa Nova JP, Pamires PM, Reabilitação das Afasias e Transtornos Associados, 2ed .Barueri SP, 2005

Bonini, MV. Relação entre alterações de linguagem e déficits cognitivos não lingüísticos em indivíduos afásicos após acidente vascular encefálico, Tese de mestrado USP, São Paulo 2010.

Couto, EAB. A prosódia e a função comunicativa na estereotipia da fala de indivíduos afásicos, Tese de doutorado UFMG, Belo Horizonte, 2011.

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